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Extraído na integra de www.moderna2000.com.br
Polêmica em vestibular é esclarecida nos livros de Amabis e Martho
Março/99
por
Gilberto Martho
O vestibular de Biologia
de 1999 da Universidade Federal da Paraíba trouxe uma questão sobre ciclos de
vida, cuja resposta foi contestada com base em alguns livros didáticos
destinados ao ensino médio. Os livros de Amabis e Martho, todavia, concordavam
com a resposta oficial do vestibular. Face a essa discrepância, apresentamos a
seguir a questão que provocou a polêmica, e um comentário assinado pelos
autores José Mariano Amabis e Gilberto Martho.
Questão 36
Sobre as plantas e as algas,
afirma-se que
I.
são assexuadas porque não fazem sexo como os animais.
II.
as algas verdes (Chlorophyta), as vermelhas (Rhodophyta) e as pardas (Phaeophyta)
possuem clorofila do tipo a.
III.
as briófitas e as pteridófitas apresentam ciclo de vida diplobionte, com
alternância de gerações haplóides e diplóides.
IV.
as criptógamas possuem estruturas reprodutoras bem visíveis e as fanerógamas
têm essas estruturas pouco evidentes (escondidas).
V.
as gimnospermas e as angiospermas são, basicamente, organismos diplóides e
apresentam estruturas reprodutoras denominadas, respectivamente, estróbilos e
flores.
Estão corretas apenas
a)
I, III e IV.
b)
I, II e V.
c)
II, III e V.
d)
III e IV.
e)
II, III e IV
A resposta é c),
pois são corretas as afirmações II, III e V. Alguns professores questionaram
a validade da afirmação III, com base em livros didáticos de ensino médio
que chamam o ciclo das briófitas e das pteridófitas de haplodiplobionte,
em vez de diplobionte.
A nomenclatura dos ciclos de
vida surgiu nas décadas de 1920 e 1930. Svedelius, em 1931, foi o primeiro a
empregar o termo "haplobionte" para designar o ciclo de vida de certas
algas. Posteriormente, essa nomenclatura foi generalizada, passando também a
ser usada para ciclos de vida de outros organismos.
De acordo com a nomenclatura
originalmente proposta, há dois tipos básicos de ciclo vital: haplobionte
e diplobionte.
No primeiro tipo de ciclo —
haplobionte (do grego haplo, simples, único, e bionte,
organismo) — há apenas um tipo de organismo adulto, que pode ser haplóide ou
diplóide. Se a forma adulta é haplóide (n), o ciclo é denominado haplobionte
haplonte e representado pela sigla H, h. Se a forma adulta é diplóide
(2n), o ciclo é denominado haplobionte diplonte e representado pela
sigla H, d.
No ciclo haplobionte haplonte
(H, h), os adultos (n) produzem gametas (n), que se unem e dão origem ao zigoto
(2n). Este sofre meiose, originando esporos (n), que se desenvolvem em formas
adultas (n), fechando o ciclo. Como a meiose ocorre no zigoto, fala-se em meiose
zigótica.
No ciclo haplobionte diplonte,
a meiose ocorre nos adultos (2n), levando à formação de gametas (n). Estes se
unem e originam o zigoto (2n), que se desenvolve em formas adultas (2n). Como a
meiose leva à formação de gametas, fala-se em meiose gamética.
O segundo tipo de ciclo de
vida — diplobionte (do grego diplo, duplo, dois), representado
pela sigla D, h+d — caracteriza-se por apresentar dois tipos de forma adulta,
uma delas haplóide, denominada gametófito, e outra diplóide,
denominada esporófito. A meiose ocorre no esporófito (2n), levando à
formação de esporos (n), que germinam e originam gametófitos sexuados (n).
Estes, por sua vez, formam gametas (n), que se unem e originam o zigoto (2n). O
desenvolvimento do zigoto no esporófito (2n) fecha o ciclo. Como a meiose
ocorre na formação de esporos, fala-se em meiose espórica. No ciclo
diplobionte ocorre, portanto, alternância de gerações haplóide e diplóide.
Alguns livros didáticos
destinados ao ensino médio trazem nomenclatura diferente da apresentada
anteriormente, que foi a adotada em nossas obras. O ciclo que denominamos
haplobionte haplonte (H, h) tem sido chamado "haplobionte"; o ciclo
haplobionte diplonte (H, d) tem sido chamado "diplobionte"; e o ciclo
diplobionte (D, h+d) tem sido chamado "haplodiplobionte". Essas
denominações, porém, não correspondem às usadas em bibliografias
especializadas, como no tradicional compêndio de Botânica Introduction to
the algae, de H. C. Bold e M. J. Wynne (Prentice Hall, Inc., New Jersey,
1978), e no Glossário Ilustrado de Botânica, de M. G. Ferri, N. L. de
Menezes e W. R. Monteiro-Scanavacca (Ed. Nobel, São Paulo, 1981).
Pesquisando a possível
origem dessas diferentes nomenclaturas, verificamos que o conjunto de termos
"haplobionte, diplobionte e haplodiplobionte" foi usado pelo fundador
do Departamento de Botânica da Universidade de São Paulo, Prof. Felix
Rawitscher, no livro Elementos Básicos de Botânica. Muitos biólogos,
porém, julgaram equivocada a terminologia empregada pelo Prof. Rawitscher,
tanto assim que professores de seu próprio departamento têm usado a
nomenclatura original, como pode ser visto nos livros Glossário Ilustrado de
Botânica, de M. G. Ferri, N. L. de Menezes e W. R. Monteiro-Scanavacca (Ed.
Nobel, São Paulo, 1981) e Botânica, de L. M. Coutinho (Ed. Cultrix, São
Paulo, 1973).